A Rotina tem seu Encanto, de Yasujiro Ozu

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Por Rodrigo Grota

Paul Schrader escolheu três diretores para exemplificar sua teoria sobre a transcendência no cinema: Bresson, Dreyer e Ozu. Dentre esses três, no entanto, ninguém é mais misterioso e indecifrável, a meu ver, que o mestre japonês Yasujiro Ozu. Seus filmes possuem uma linguagem tão enigmática, simples, e aparentemente ausente de artifícios, que a impressão geral é a de que nada está a acontecer em nenhuma das cenas. A ausência de movimentos, a música ambiente e contínua, os gestos mínimos dos atores, o constante campo/contra-campo, a posição inferior da câmera, o uso da objetiva 50mm – tudo em Ozu tende à mais completa discrição, ausência – como se o mestre estivesse a nos dizer: “por favor, não estou aqui”.

Durante a Mostra Internacional de Cinema, em São Paulo, pude ver a versão restaurada de “A Rotina tem seu Encanto“, último filme do mestre, falecido a 12 de dezembro de 1963. Nesse filme, por exemplo, levamos cerca de uma hora até compreender parcialmente as relações que se estabelecem entre os personagens. Após essa compreensão, surge um sentimento estranho, único, que talvez só Ozu consiga nos oferecer – você deixa de acompanhar uma trama, uma história, e passa a vivenciar aquilo junto aos personagens.

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Em um primeiro contato, nada de mais está acontecendo – não há quase nenhum conflito aparente. No caso desse filme, há apenas a vontade de um pai de que sua filha se case – nada mais. No entanto, em cada frase, em cada pausa, em cada desejo não verbalizado, há todo um mundo de sentimentos, anseios, frustrações que Ozu descreve, mas de uma forma tão indireta, sob um estilo tão minimalista, que aparentemente não há linguagem ali. Ozu recusa qualquer postura que poderia ser encarada como uma vaidade do diretor. Não há enquadramentos intencionalmente poéticos, não há movimentos que querem expressar algo. O que há ali são personagens que ele conhece muito bem e um universo composto por elementos mínimos, que, quando somados, se tornam algo precioso e assustadoramente real. as habituais regras de roteiro do cinema narrativo, as exigências de conflito, reviravoltas – tudo isso cai por água abaixo diante de um filme de Ozu. E o melhor: seus filmes eram populares e são vistos até hoje, e não só no Japão.

Quando lhe perguntavam sobre influências de outros diretores, ele nunca citou um só nome – seu estilo foi criado unicamente dentro de sua mente. No trailer de “A Rotina tem seu Encanto”, dá até pra ver cenas de bastidores do filme – Ozu no estúdio, conversando com os atores, ao lado da câmera baixa.

Autor de 54 filmes entre 1927 e 1962 (sendo que 35 foram produzidos na época do cinema silencioso), Ozu é um universo a ser revisitado constantemente. Seus filmes geralmente nos deixam uma única questão. Mas essa questão costuma ser tão profunda e verdadeira, tão essencial, que você fica impregnado por esse sentimento e não consegue mais esquecê-lo.

Se há um cineasta que nos oferece uma experiência próxima ao que uma religião poderia oferecer, creio que esse seria Ozu. Ele não só nos dá a impressão de que algo maior existe – mas ele reafirma isso a partir de elementos triviais do dia-a-dia, coisas mínimas, ligadas a um certo vazio. É como se ele dissesse: “Realmente não estamos aqui. E essa é a maior realidade que podemos viver”. Mestre Ozu!

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Este post foi publicado em novembro 2, 2013 às 12:38 am. Ele está arquivado em revista taturana e marcado , , , . Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

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