O cinema é Nicholas Ray?

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Por Rodrigo Grota

Houve uma época em que se dizia – o cinema é Nicholas Ray. E quem dizia eram os franceses, mais precisamente Jean-Luc Godard, anos 50. E hoje, o quê podemos dizer?

Existem mestres como Kiarostami, Resnais, Oliveira, Eastwood, Scorsese, Coppola e o próprio Godard que nos atraem a cada novo filme. Você pode até não gostar desses trabalhos mais recentes – mas sempre haverá algo interessante ali, um elemento vivo, humano. Existe também uma geração intermediária de grandes diretores que há algum tempo vivem o seu ápice, um grupo que inclui Lynch, Cronenberg, Burton, Hsiao-hsien, Ming-Liang, Kar-Wai, entre outros – uma geração que constantemente se reinventa e nos apresenta novos caminhos.

Mas e os diretores mais jovens? Podemos nos apoiar seguramente em alguns nomes e dizer ‘isso é o cinema’? Se nos anos 40, no cinema americano, havia Hawks, Lang, Preminger, Lubitsch, Wilder, Sirk, e tantos outros gênios… Se pouco depois tivemos Ray, Aldrich, Kubrick e Cassavetes na mesma cinematografia.. Enfim, quem podemos citar hoje no cinema americano? James Gray, Paul Thomas Anderson, Quentin Tarantino, David Fincher? De qual diretor devemos esperar o próximo filme como quem espera uma verdade a ser revelada?

O cinema, na verdade, perdeu seu aspecto de ‘sagrado’. A grande tela não representa mais algo maior que o espectador – quando assistimos a um filme não estamos mais diante do nosso destino, um caminho com o qual podemos nos identificar. O cinema passou a ser ‘real’, trivial, banal mesmo. A imaginação e a capacidade de criar fábulas, o ritual e a sua potencialidade em criar mitos – tudo isso está se esvaindo a partir de uma relação cética que criamos com a imagem. Antes, ao ver um filme, acreditávamos – por mais irracional, surreal ou não-realista que fosse, havia ainda a chamada “suspensão da descrença”. Chegamos a uma fase, no entanto, que não podemos mais dizer “O Cinema é Nicholas Ray”, pois não acreditamos mais na imagem. Não nos entregamos mais em uma sala escura a uma série de imagens e sons que nos levam a outros mundos, novos sentimentos, uma plena fantasia.

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O mundo é terrivelmente real, não é mais verdadeiro. E o cinema lida com a verdade – eis o que seduzia Godard em Nicholas Ray e tantos outros cineastas que criavam dentro do sistema de estúdios. Os filmes usavam back projection, eram rodados em ambientes falsos, os atores falavam como não se falava nas ruas dos EUA – mas tudo ali era verdadeiro, pois partia de uma certa imaginação, de uma dimensão de sonho que infelizmente se perdeu. Um mito como James Dean não é mais possível. Um rosto, como o de Humphrey Bogart (que, segundo Bazin, trazia a iminência da morte), já não se encontra mais. O que temos é um passado a ser cultuado e um presente que uma vez ou outra nos surpreende. No entanto.. a capacidade de amar o cinema – essa é infinita. Mesmo que ele não seja mais algo sagrado. Mesmo que ele não seja mais verdadeiro. Talvez seja apenas um amor profano e ilusório – mas ainda assim um amor.

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Este post foi publicado em julho 29, 2013 às 5:50 pm. Ele está arquivado em filmes e marcado . Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

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