Experimentação e Ousadia: entrevista com o curador Bernard Payen

 

foto: Fábio Luporini/Jornal de Londrina

foto: Fábio Luporini/Jornal de Londrina


Editor-chefe do site Objectif Cinema por seis anos (2000-2006), programador da Cinemateca Francesa e colaborador mensal de um programa sobre cinema para uma rádio local de Paris, o jornalista francês Bernard Payen é mais conhecido no Brasil por coordenar a programação de curtas-metragens da Semana da Crítica do Festival de Cannes – atividade que exerce desde 2006 (ele trabalha para o festival há 10 anos, tendo começado como integrante da Comissão de Seleção de Curtas). Com um apreço especial pelo curta-metragem brasileiro, Payen já esteve no País participando de festivais em Recife e São Paulo; ele pretende, aliás, filmar por aqui – está escrevendo seu primeiro longa, que deve contar com cenas rodadas na França e no Brasil. Nessa breve entrevista concedida por e-mail, Payen traça um panorama atual do formato curta-metragem*:

Você é curador da Semana da Crítica em Cannes para o formato curta-metragem. Todos os anos assiste a muitos filmes de cinematografias variadas. Em sua posição de curador, como você avalia o panorama atual desse formato?
É um sentimento misto. É certo que a cada ano podemos sempre encontrar alguns filmes muito bons, e esses filmes são muito bem feitos. Cada vez melhor. Mas é cada vez mais difícil ver alguns filmes singulares, com temas nunca vistos ou nunca tratados. E acima de tudo, filmes pessoais, profundamente pessoais, na forma e no tema. Filmes que ousam e experimentam. É cada vez mais raro hoje em dia encontrar filmes como esses. Mas para mim, os curtas-metragens também devem ser o lugar para a experimentação e ousadia.

A linguagem dos curtas passou por uma mudança concreta nos últimos anos devido ao fortalecimento do cinema digital. Como você avalia essa transição – os filmes se tornaram menos narrativos, mais experimentais? Ou a democratização do acesso aos meios de filmagem reforçou a ideia de que o cinema é essencialmente uma arte narrativa?
Não, precisamente para mim, isso não causou alterações em termos de narrativa e forma. Mas é claro que a prática tem sido democratizada: é cada vez mais fácil fazer um filme. Mas para dizer o quê? E como? Essa é a questão real, não importa em que formato o filme é rodado (filme, digital). O importante para mim é que os cineastas jovens aprendam as estruturas narrativas, trabalhando com corroteiristas para aprimorar a história e depois desmontá-la durante as filmagens. Ou aprendam a fazer alguns filmes experimentais e livres, que estabeleçam uma espécie de diálogo com os espectadores.

Sabe-se que você tem um apreço especial pelo cinema brasileiro, principalmente pelos nossos curtas-metragens. O que mais o atrai em nossos filmes? A linguagem, a paisagem, os personagens? Por que os longas brasileiros não o atraem tanto?
Tenho a sensação de que há mais e mais liberdade, entusiasmo e maturidade no jovem cinema brasileiro, também em todos os filmes da América Latina. Uma grande mudança, de certa forma. Esses filmes são os que me surpreendem mais. Frequentemente eu me sinto muito entusiasta. Existe também uma tentativa de falar sobre outros temas, criar histórias em outras paisagens. Tentar outro tipo de tramas. E eu posso ver que mais e mais jovens cineastas brasileiros estão trabalhando coletivamente. Alguns deles estão trabalhando em outros filmes de amigos. Há os jovens cineastas do Nordeste (Recife, Bahia), os do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Sul do Brasil … Todos com sua própria identidade.

Quando você assiste a um filme enquanto curador de um festival, quais perguntas costuma fazer a si mesmo em relação ao que acabou de ver? O que mais o seduz em um filme? Você chega a rever alguns desses filmes em uma tela maior antes da seleção final; discute com outros parceiros da curadoria? Mostra esses filmes para pessoas que não têm nada a ver com cinema de forma direta? Por outro lado, você sente que em cada ano há um aspecto da linguagem que se evidencia em variados filmes de países diferentes?
Quanto mais você está assistindo a filmes, mais o seu olhar fica aguçado. Podemos ver facilmente mais repetições, defeitos, problemas narrativos e formais. Mas eu gosto de ser surpreendido e ficar excitado, eu adoro assistir a filmes e ter imediatamente a sensação de nunca ter visto este filme. Eu não gosto dos filmes que parecem demasiado perfeitos… Os filmes são vistos na televisão ou computador, a menos que o diretor faça um pedido específico. Nós pré-selecionamos os filmes que discutimos longamente. Trabalhamos também para programar os filmes. Discutimos como os filmes podem “conversar” um com o outro… Às vezes eu posso solicitar a opinião de pessoas que não estão relacionadas ao cinema de uma forma direta. Já aconteceu. A cada ano há diferentes temas de filme para filme, como no ano passado, o tema “crianças e animais mortos”. Muito curioso! Às vezes, um país envia filmes muitos bons e outros não tão bons… A produção de curta-metragem pode ser mais fraca de um ano para outro. Não existe uma regra.

O cinema nasceu como curta-metragem e certamente nunca deve abandonar esse formato. Quais cinematografias hoje mais te interessam quando pensamos em curtas? O cinema francês vive uma boa fase nesse gênero? Como você analisa a produção jovem francesa, principalmente aquela que vem das faculdades de cinema? Corremos o risco de assistir apenas a filmes produzidos por cinéfilos, pessoas que amam essa linguagem e vivem restritos a esse universo?
A produção de curtas-metragens na França é muito importante, mas nem sempre é muito boa. Este ano, nós selecionamos na Semana da Crítica muitos filmes franceses bons (com uma grande variedade), mas esse nem sempre é o caso. Os filmes de estudantes franceses não são sempre muito bons, eles não têm arquitetura narrativa e não são muito originais. Eu quase posso dizer que “sofrem” da influência da Nouvelle Vague francesa (50 anos depois!). Ou dos filmes americanos (independentes ou Hollywoodianos) dos anos 80 ou 90. Mas há no mundo outras formas narrativas, outras indústrias cinematográficas. Atualmente a internet pode nos dar qualquer forma de conhecimento, um monte de exemplos de diferentes tipos de filmes que podem nos influenciar. Então, sejamos curiosos!

*Entrevista concedida em setembro de 2012 para a Revista Taturana n. 10

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Esta entrada foi publicada em abril 3, 2013 às 2:39 pm e está arquivada sob entrevista. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

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